O corpo todo (*)


Mãos que se tocam
E se entrelaçam
Para se encantar
São protagonistas
Braços que se roçam
E se acotovelam
Para se debruçar
São doces artistas
Pernas que se cruzam
E se acavalam
Para se enlaçar
São malabaristas
Línguas que se molham
E se acumulam
Para se provocar
São tão golpistas
Corpos que se juntam
E se movimentam
Para se perpetuar
São alquimistas
E tão calculistas
Na meta final


(*) Márcia Fernanda Peçanha Martins

A menina cresceu (*)(**)

A ingenuidade dá adeus,
o coração aperta demais,
e os olhos claros já choram.

É hora de pedir a Deus,
que tu não sofras jamais,
e meus passos te encaminhem.

Do dia para a noite,
a menina sumiu,
cresceu, mudou mais.

E eu aqui, calada, sozinha,
cada dia mais criança.

(*)Márcia Fernanda Peçanha Martins
(**) a menina é minha filha que completa, em 6 de dezembro, 15 anos

Chave na mesa (*)


As gavetas reviradas
e todas escancaradas
já indicavam o final.
O armário do banheiro
sem a colônia de cheiro
era mais que um sinal.
A cópia da chave na mesa
mostrava a certeza
que ali não seria ideal.
Seguimos nosso caminho
trilhado só pelo carinho
de sombra, lua e carnaval

(*) márcia fernanda peçanha martins

Poemetos de Natal (*)

Insano

Na árvore do meu Natal
pendurei enfeites dourados
que lembram o amor.
Na véspera do meu Natal
distribui beijos molhados
com perfume de bondade.
Na noite do meu Natal
esqueci ódio e desafetos
e conjuguei o perdão.
Nos presentes do meu Natal
esbanjei nos objetos
para cativar todos.
E à meia-noite, que estranho,
retomei meu lado insano.

A carta

Quem nunca pensou
em escrever para o Noel
pedindo todo o impossível?
Um filme que não passou,
uma cuca recheada de mel,
e aquela receita infálivel.
Como o velhinho demora,
é melhor encurtar a lista.
Supérfluos ficam de fora,
as coisas boas à vista.
Se sobrar um tempinho,
Noel dá uma esticadinha
e leva para o menininho,
sem teto, comida e escola,
um pouquinho de carinho.

(*) Márcia Fernanda Peçanha Martins

Ponto Final (*)

Vem até a minha casa
Despojado
De qualquer temor
Eu te recebo com calma
Acomoda-te no sofá
Sossegado
Deixa passar o calor
Eu escutarei a tua alma

Brinca com o cachorro
Impertinente
Enquanto faço café
E sirvo com amanteigados
É preciso usar a palavra
Convincente
Como se fizesse cafuné
Nos teus cabelos cacheados

Nada mais temos a doar
É ponto final
De um romance colorido
E hoje totalmente desbotado
Não te desejo mais nada
Segue o sinal
Não precisa ficar abatido
Sei absorver um caso acabado

(*) Márcia Fernanda Peçanha Martins

Brincadeira de criança (*)


Se fosse brincadeira
seria esconde-esconde
ou o jogo da amarelinha
Porque não há maneira
de conquistar teu olhar
e trazer você prá minha
E faço muita besteira
tal uma criança a brincar
de colecionar figurinha
É sempre uma choradeira
já que você não se entrega
e segue nesta picuinha

(*) márcia fernanda peçanha martins

Fim da festa (*)


Sem teu abraço
rendo-me às armadilhas.
Esboço cansaço
e me desfaço.
Ando sem rumo
fugindo das guerrilhas.
Falta-me insumo
e me dessarumo.
Sem teu sorriso
não tenho outras gargalhadas.
E assim sem aviso
perdi o meu riso.
Careço de afagos
mas tenho as portas fechadas.
E o pior dos estragos
é afundar em tragos.
Não posso caminhar
sem me firmar nos teus pés.
E se penso em parar
onde devo aportar?
Porque fui permitir
teus dedos nos meus cafunés?
Hoje vou me abstrair
e te usar de souvenir.
Se nada mais resta
findou-se a nossa novela
é o fim da festa.

(*) Márcia Fernanda Peçanha Martins

Conversa (*)


Carrego uma pressa
de não chegar
e assim adio o partir
Descumpro a promessa
de te deixar
quando te vejo surgir
Assim segue a conversa
e eu no lugar
onde volto a me iludir
com teu respirar
à flor da pele


(*) márcia fernanda peçanha martins

Saudade do meu irmão, Dedé, Dédi ou Luli (flores para você)


Tudo é saudade (*)

Tudo que falta é saudade.
A dor é sempre forte.
E o que abandona é saudade.
Ainda que nada importe.
Tudo que arde é saudade.
Independente do corte.
O que desespera é saudade.
Sem carimbo no passaporte.
Tudo que dói é saudade.
Mesmo que eu não suporte.
E a tua ausência é saudade,
Falta de sorte, de norte,
Meu encontro com a morte

(*) Márcia Fernanda Peçanha Martins

Lançamento de livro na Feira do Livro


Gente, chique no último

POETAS LANÇAM 2º VOLUME
DE ANTOLOGIA À FLOR DA PELE

Livro reúne 64 poetas de todo o Brasil e oferece 320 poesias que falam dos sentimentos nos mais variados estilos literários

O lançamento da antologia “Poemas à Flor da Pele”, que terá a presença dos poetas de Porto Alegre e cidades próximas, será no dia 5 de novembro, das 18h às 19h50min, no Memorial do Rio Grande do Sul, Rua Sete de Setembro, 1020, na Praça da Alfândega. Em formato pocket (10,7 cm por 15,2 cm), que é mais fácil de manusear e foi um sucesso na edição de 2008, o livro compila poemas dos integrantes da Associação Cultural Poemas à Flor da Pele, originada no Orkut, em 2006, hoje com mais de dois mil membros.

Mais de 10 poetas deverão estar presentes para a sessão de autógrafos, na 55ª Feira do Livro, seguido de coquetel, declamação de poesias e performance do ator Marcos Bahrone. Organizado pela administradora da Poemas, Soninha Porto, o livro foi lançado oficialmente durante o XVII Congresso Brasileiro de Poesias, em Bento Gonçalves, no início de outubro. Para Soninha, os poetas de todos os cantos do País, nas páginas da antologia, “compartilham generosos suas criações, onde se vê a paixão à flor da pele dos laboriosos”.

Nas 387 folhas do livro de capa colorida, o leitor encontrará poemas para crianças, adultos e adolescentes. O grande poeta contemporâneo, Afonso Estebanez Stael, membro da Academia Brasileira de Poesias, fez o prefácio da obra, disse que “Poemas à Flor da Pele constitui registro literário de inestimável valor cultural no âmbito da poesia atual. “A poesia de ‘Poemas à Flor da Pele’ é uma forma universal de reinvenção da vida”, escreveu.

O QUE: lançamento de livros com sessão de autógrafos
QUANDO: 5 de novembro
HORÁRIO: das 18h às 19h50min
ONDE: Memorial do Rio Grande do Sul
ENDEREÇO: Rua Sete de Setembro, 1020, antigo prédio dos Correios e Telégrafos
EVENTO: 55ª FEIRA DO LIVRO

Ponto Final (*)


Vem até a minha casa
Despojado
De qualquer temor
Eu te recebo com calma
Acomoda-te no sofá
Sossegado
Deixa passar o calor
Eu escutarei a tua alma

Brinca com o cachorro
Impertinente
Enquanto faço café
E sirvo com amanteigados
É preciso usar a palavra
Convincente
Como se fizesse cafuné
Nos teus cabelos cacheados

Nada mais temos a doar
É ponto final
De um romance colorido
E hoje totalmente desbotado
Não te desejo mais nada
Segue o sinal
Não precisa ficar abatido
Sei absorver um caso acabado

(*) márcia fernanda peçanha martins

Estratégia de saída (*)

Arranca de mim
este teu cheiro
este teu corpo
não te quero assim
tira da minha sala
este teu livro
este teu retrato
ajeita tudo na mala
esvazia o roupeiro
não deixa meia
leva as camisetas
retira-te inteiro
limpa o armarinho
da cozinha, do banheiro
não deixa vestígios
é o único caminho
beberei algumas doses
vagarei pela noite
aumentarei o Lexotan
mas nada de overdoses
basta a eternidade
que segui tuas vozes
respirei pela metade
e fui só infelicidade

(*) márcia fernanda peçanha martins

Primavera na minha vida (*)

A primavera, especialmente nos últimos anos, não bate mais à porta da minha humilde residência. De forma abusada e íntima, invade os aposentos cobertos e encasacados da minha alma e da minha vida. Como nova inquilina, ela expulsa cheia de razão a escuridão do inverno, o pó acumulado das janelas não abertas, o medo do frio lá fora. E vivemos, durante o seu tempo anual nesta parte do hemisfério, uma história de amor e encantamento, como deveriam ser todas as relações. Perfumadas pelo respeito, enfeitadas pelo colorido e duradouras o tempo necessário para florescer a sedução e a paixão.

Nem sempre permiti que esta estação entrasse com tanta tranquilidade nos meus dias. Até com as variações climáticas, desenvolvi uma certa rebeldia. É algo que me persegue. Na infância, recordo vagamente que não suportava muito bem a presença da primavera por razões explícitas de saúde. Alergicamente falando, a chamada estação das flores adoecia frequentemente a minha irmã mais velha com a sua asma e me debilitava com os ataques de rinite. Na adolescência, a primavera acenava com uma certa liberdade de horários de lazer e os ensaios de um corpo mais à mostra. Tudo regulado pelos pais, o que impedia o amor maior.

Na época da formação da Saudosa Maloca, nome carinhoso da turma da faculdade de Comunicação Social da PUCRS, a primavera trazia a promessa de festas e encontros dos maloqueiros. Muitas vezes, eventos planejados no pátio da Famecos, adornados pelo sol que nos esquentava e pela troca de olhares com os guris das Engenharias. E, finalmente, ao começar a vida profissional, inicia-se um flerte mais promissor com a primavera. Talvez pela escassez de momentos livres para aproveitar o sol, pela saudade de descascar laranja debaixo de uma árvore e de caminhar em volta da Redenção.

Depois, inexperiente, deixei que um inverno tempestuoso e úmido, com raios e dias fechados, espantasse, durante muitas estações, a primavera da minha vida. De nada adiantava as árvores florescerem, nem as flores embelezarem o interior de outras pessoas, nem os dias ficarem mais longos. Apesar do reflorescimento da flora e da fauna, meu coração estava congelado, alheio ao bater das asas dos pássaros e às pequenas borboletas brancas e amarelas que tomavam o espaço.

Mas, como já disse Cecília Meireles, é certo que a primavera chega. “É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da perpetuação”. E, reencontrei, definitivamente, a primavera, quando preparei meu ventre para hospedar a minha filha Gabriela. E, desde então, fiquei pronta para receber a estação. E vivemos harmonicamente. Passei a prestar atenção ao murmúrio dos passarinhos novos, ao azul do céu, ao movimento das árvores, ao cheiro das flores e os sentimentos que carregam com elas. E, assim como Cecília, aprendi com a primavera, a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.
(*) márcia fernanda peçanha martins, publicado originalmente no coletiva.net